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A polêmica
dos alimentos
geneticamente
modificados
*

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Apocalípticos ou integrados? Pegando emprestados dois "rótulos" utilizados na década passada na discussão sobre a indústria cultural, estas parecem ser as posições diametralmente opostas na qual se entrincheiraram opositores e defensores dos alimentos transgênicos neste final de século. Olhando mais de perto, porém, a situação pode se confundir, e não é raro ver um "integrado" fazendo previsões francamente apocalípticas para um mundo sem o uso da biotecnologia vegetal, a ciência de manipular genes dos reinos animal e vegetal e inseri-los em plantas para que adquiram determinadas características desejáveis, desde a resistência a herbicidas ou pragas até o aumento do teor nutritivo .

"... a negação das novas tecnologias aos pobres é sinônimo da condenação destes à continuação da má nutrição que enfrentam, o que finalmente poderá negar aos mais pobres dos pobres o direito à sobrevivência", vaticina em sua "Revisão global das safras transgênicas comercializadas" de 1998 o Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Agro-biotécnicas, ISAAA, uma organização norte-americana. Alimentos mais fartos e ricos em nutrientes, safras capazes de alimentar a inflacionada população da Terra no século XXI, menos trabalho e mercado garantido para os produtores, menor contaminação do solo e das águas por pesticidas e herbicidas... não são poucas as vantagens que as empresas da área creditam a transgênicos.

Seriam estes então a panacéia para todos os males do mundo? Argumento no mínimo cínico, garantem por sua vez os representantes da corrente contrária, que engloba ambientalistas, entidades de defesa do consumidor e também uma parcela de pesquisadores, lembrando que nos anos 60 a mesma tecla foi batida na defesa da indústria de defensivos agrícolas, e nem por isso, passados 30 anos de safras crescentes e poluição do solo e da água, o mal da fome foi erradicado do planeta. O movimento que se articula em todo o mundo contra a liberação e produção indiscriminadas de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) exige a realização de estudos locais caso a caso para avaliar os efeitos destes alimentos para a saúde humana e para o meio ambiente. As dúvidas levantadas são muitas: desde a ocorrência de reações alérgicas nos seres humanos até eliminação de insetos e microorganismos benéficos ao equilíbrio ecológico, desenvolvimento de espécies resistentes aos defensivos inseridos nas plantas e a utilização indiscriminada de agrotóxicos no meio ambiente, já que as plantas modificadas estariam imunes a esses produtos.

À primeira análise, parece missão impossível barrar o avanço dos transgênicos, se não pelas suas apregoadas qualidades, ao menos pelo poder de fogo das grandes empresas de biotecnologia vegetal. O mercado das sementes geneticamente modificadas é dominado por um grupo de 10 multinacionais, que investem anualmente cerca de 20 bilhões de dólares em pesquisa e têm à frente nomes como Novartis (Suíça, dona da Ciba Sementes), Monsanto (EUA, dona da Monsoy, Agroceres, Cargill e Braskalb), Zeneca (Inglaterra) DuPont (EUA, dona da Pioneer) e AgrEvo (Alemanha, joint-venture entre Hoechst e Schering). Além de ter a patente das espécies geneticamente modificadas, esses laboratórios tornaram ainda mais aguda a concentração de mercado ao desenvolver plantas que são resistentes apenas à sua própria marca de herbicida. Ou seja, se levar a semente, o agricultor vai ter que comprar também o defensivo da empresa. Outra especulação corrente é de que boa parte das sementes transgênicas seria estéril, o que retiraria do produtor rural a condição de fazer sua própria semente, ficando totalmente à mercê das multinacionais.

Reportagem e textos: Nilva Bianco
Fotos: Marcello Vitorino 

(*) Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista Alimentos & Tecnologia (Grupo Brasil Rio). Os textos podem ser citados parcialmente, desde que citada a fonte.


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