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Um bairro do século XX Apesar de sua localização próxima ao centro da cidade, a Aclimação é um dos bairros mais jovens de São Paulo: nasceu já no século XX, bem depois que outros de perfil mais aristocrático, como Higienópolis, Pacaembu, Campos Elíseos, ou mesmo industriais, como o Brás, haviam surgido. Todos desenvolveram-se a partir do loteamento das antigas chácaras e fazendas que tomavam as terras da capital, circundando os vários caminhos de tropeiros, que faziam a ligação entre o centro da cidade, o sertão e o litoral. Havia o Caminho do Carro para Santo Amaro, que seguia por onde hoje estão as avenidas da Liberdade, Vergueiro e Domingos de Morais em direção ao distante povoado de Santo Amaro. Havia também o Caminho de Pinheiros, que partia da Sé, atravessava o Vale do Anhangabaú e subia pela atual avenida da Consolação em direção ao que na época era um povoado indígena. Havia ainda um caminho para Mina Gerais, um para Goiás e também o Caminho do Mar ou Estrada de Santos, que descia a Rua da Glória, atravessava o rio Lavapés (não estranhe se nunca ouviu falar dele, pois, como a maioria dos rios, riachos e córregos de São Paulo, desapareceu, canalizado, engolido pelo progresso), seguia pelo Ipiranga e ia dar em Santos. O local que deu origem ao bairro da Aclimação era uma área sinuosa, cheia de morros e baixadas, um triângulo demarcado pelo Caminho do mar, pelo rio Lavapés e pelo córrego Cambuci, conhecido com Sítio Tapanhoin. Foi essa área que Carlos Botelho, médico nascido em Piracicaba e formado em Paris, adquiriu em 1892, em busca da realização de um desejo nascido na capital francesa: a criação de uma versão brasileira para o Jardin dAcclimatation, que, entre outras atrações, possuía um zôo e servia de base para a aclimatação de espécies exóticas, além de experiências envolvendo reprodução e hibridação de animais. Assim, o nome indígena deu lugar à inspiração francesa no que passou a se chamar Jardim da Aclimação, origem do atual Parque da Aclimação e de todo o bairro. Jardim foi grande centro de lazer Boa parte das milhares de pessoas que hoje correm, caminham, tomam sol ou simplesmente desfrutam da natureza no parque desconhecem o seu passado. Não imaginam que durante 30 anos, até a década de 20, o Jardim, muito maior do que é hoje, foi uma das grandes atrações da capital. Num mesmo local Botelho conseguiu criar um complexo de lazer e de pesquisa difícil de imaginar. Ali, o médico, pesquisador e político realizava a quarentena, ou aclimatação de gado trazido da holanda. Na cremérie, os freqüentadores do parque podiam beber leite tirado na hora ou adquirir derivados como creme ou queijo. E havia muito mais: lá funcionava a sede da Sociedade Hípica Paulista, que depois transferiu-se para Pinheiros, um posto zootécnico e um laboratório de pesquisas científicas. Para o lazer, havia o bosque, o lago formado a partir do represamento de córregos da região, no qual haviam canoas para passeios, um zoológico (o primeiro da cidade) com ursos, leões, macacos, elefantes, onças e outros animais, além de salão de baile, rink de patinação, barracas de jogos, aquário, parque de diversões. Para entrar, os visitantes pagavam 300 réis. Por se tratar de uma região semideserta, o acesso ao Jardim da Aclimação através de transporte público só era possível aos domingos e feriados, quando o bonde nº 28 partia da Sé. Prefeitura comprou o parque em 39 Anexa ao jardim, havia uma extensa área privada pertencente à família Botelho. Na década de 30, ela começou a ser loteada pelos filhos do médico, que há anos enveredara para a atividade política e passara a propriedade das terras aos seus herdeiros. Em 1938, ao ser informado de que estes, com dificuldades para arcar com a manutenção e despesas do Jardim da Aclimação, iriam loteá-lo também, o prefeito Francisco Prestes Maia propôs a compra do local. Em 16 de janeiro de 1939, os herdeiros Antônio Carlos de Arruda Botelho, Constança Botelho de Macedo Costa e Carlos José Botelho Júnior oficializaram a venda da área de 182 mil metros quadrados à prefeitura de São Paulo, por um valor de 2.850 contos de réis. Paradoxalmente, a aquisição marcaria não o renascimento do Jardim da Aclimação, mas o fim, em definitivo, da maior parte de suas atrações, e o início de longos períodos de alternância entre abandono e revitalização da área verde. Morro da Aclimação foi o úl Enquanto o Jardim da Aclimação ainda vivia seus dias de glória, o que viria a ser um bairro começava a tomar forma. Se em 1900 existiam apenas as ruas e avenidas que hoje o delimitam em relação a seus vizinhos, como Vergueiro, Lins de Vasconcelos ou Tamandaré, em 1905 estavam abertas a Pires da Mota, Cururipe, Espírito Santo, José Getúlio, Baturité e o trecho inicial da atual Avenida Aclimação. Em 1914, já constavam do mapa as ruas Machado de Assis, além de parte da Paula Ney e José do Patrocínio. Entre essas vias, localizadas na área mais íngreme das terras chamadas de Morro da Aclimação e pertencentes originalmente à família de Francisco Justino da Silva, e outras, como a Lins de Vasconcelos, a Avenida Aclimação e o próprio Jardim da Aclimação, tudo o que existia ainda era um longo trecho com características rurais, dominado por mato, córregos, plantações e estábulos. Em 1916, sempre respeitando a sinuosidade da região, começou a ser aberta a série de ruas que formam um semi-círculo a partir da Avenida Aclimação, convergindo para o Largo Rodrigues Alves, atual Praça General Polidoro, todas com nomes de pedras preciosas: Turmalina, Topázio, Diamante, Ágata, Safira, Esmeralda, Rubi... Mais para cima, em direção à Rua Nilo, a inspiração para o nome dos logradouros foram os planetas do sistema solar: Júpiter, Urano, Saturno. Só após 1928 os mapas mostram uma relativa ocupação do Morro da Aclimação entre a Rua Jurubatuba (atual Avenida Armando Ferrentini) e o cemitério da Vila Mariana - que, apesar de manter o nome, hoje está localizado dentro do bairro da Aclimação. Décad As ruas da Aclimação não receberam palacetes. O que nascia ali era um bairro residencial de classe média, no qual predominavam as casas térreas e os belos sobrados, que receberam italianos, japoneses, portugueses, paulistanos. A partir da década de 70, no entanto, a expansão imobiliária fez surgir mais e mais edifícios, marcando a verticalização crescente do bairro, o aumento da população e a conseqüente instalação de bancos, escolas, casas de comércio, imobiliárias e prestadoras de serviços para atender à demanda dos moradores. Em vias importantes como a Avenida Aclimação, são poucos os endereços residenciais que ainda resistem ao assédio do mercado imobiliário. Mas, mesmo com todas essas transformações e as reclamações dos moradores mais antigos, que dizem não encontrar mais a alma do bairro na sua atual forma, a Aclimação continua a ser considerada por muitos uma espécie de oásis de relativa tranqüilidade dentro de São Paulo. Em boa parte, graças ao seu pulmão verde - ou seu coração -, o Parque da Aclimação, onde tudo começou, em 1892. Texto: Nilva Bianco Boa parte das informações históricas contidas neste site foram retiradas do livro História dos bairros de São Paulo - Aclimação, de Augusta Garcia Rocha Dorea. A obra foi vencedora do XIV Concurso de Monografias sobre A História dos Bairros de São Paulo, promovido em 1981 pela Secretaria Municipal de Cultura através do Departamento do Patrimônio Histórico. O objetivo do concurso, que resultou na edição de uma série de livros sobre os bairros da cidade, era justamente documentar as várias histórias que compõem o grande mosaico que é São Paulo. |