Nem toda a vizinhança gosta da sua presença,
mas eles já estão acostumados ao preconceito e às durezas da vida. E
como. Boa parte dos 35 adolescentes que freqüentam a Casa 100% Gente,
aberta em fevereiro na Rua Muniz de Souza, viveram durante anos nas ruas.
Vários ainda utilizam a instituição apenas como uma base para dormir,
tomar banho, alimentar-se. Outros, no entanto, vêem naquela casa pintada
de amarelo do chão ao teto uma promessa de lar, onde a família são os
outros menores, as assistentes sociais, os educadores e psicólogos.
A Casa 100% Gente surgiu a partir da desativação do Albergue do Gasômetro,
que funcionava debaixo de um viaduto no centro da cidade. Ambiente nada próprio
para recepcionar menores. Para adequar-se às recomendações do Estatuto
da Criança e do Adolescente, o albergue subdividiu-se em duas unidades
menores, preparadas para receber grupos de faixas etárias definidas. A
Casa 100% Gente trabalha com adolescentes entre 15 anos e 17 anos e 11
meses, e é mantida através de uma parceria entre a Secretaria de Assistência
Social do Município de São Paulo e o Exército de Salvação, entidade
assistencialista que possui outros 42 núcleos de atendimento a vários
grupos na cidade.
A assistente social Adriana dos Santos Nilson, que integra o grupo de 22
funcionários mantidos pelo Exército de Salvação, explica que por
enquanto a entidade funciona principalmente para pernoite, mas que, a
partir de julho, haverá uma programação de aulas e oficinas estruturada
durante todo o dia. Hoje, a maior parte dos menores chega à casa a partir
das 19h30, passa por uma revista, toma banho, janta, lava suas roupas, e
depois participa de uma série de atividades comandadas pelos educadores:
jogos, oficinas, pintura, capoeira, roda de samba. A partir das 22h,
rapazes e garotas começam a ocupar os dois grandes dormitórios
localizados em um anexo nos fundos da casa. Entre os beliches e camas
alinhados, são escassos os objetos pessoais. Apenas as paredes ostentam
alguns sinais da presença dos jovens: um pôster do Corinthians no dormitório
masculino, uma profusão de fotos de cantores e atores no dormitório
feminino.
Rap
Quando procuram a casa pela primeira vez, todos os adolescentes preenchem
fichas e passam por uma entrevista com as assistentes sociais. De acordo
com Adriana, muitos deles vêm de famílias desestruturadas, de pais alcoólatras,
drogados, desempregados. Outros sempre viveram na rua. Muitos também
consomem drogas. "Quando os recebemos sempre vemos a possibilidade de
um retorno à família. Caso isso não seja possível, traçamos um plano
para o retorno desses jovens à escola e a sua inserção no mercado de
trabalho". Uma das tarefas da casa é encaminhar os menores a outras
instituições, como O Centro Municipal de Ensino Supletivo, Cemes ou o
Projeto Quixote, que desenvolve uma série de atividades com meninos e
meninas de rua. Atualmente, 14 dos freqüentadores da Casa 100% Gente estão
matriculados no Cemes. Para eles, a Casa virou um lar, ao qual retornam
todos os dias, depois da escola e das atividades em outras instituições.
É o caso de Daiane (na foto acima), 16 anos, 10 deles passados nas ruas
do Rio de janeiro, sem contato com a família. Em janeiro deste ano ela
chegou a São Paulo e começou a freqüentar o Albergue do Gasômetro, de
onde foi encaminhada pela a Casa 100% Gente . "Aqui é muito melhor,
a gente tem uma vizinhança, apesar de alguns não gostarem porque somos
de rua, ou por causa da nossa cor". Hoje, a garota tem uma rotina:
pela manhã, freqüenta o Cemes, onde cursa os primeiros anos do Ensino
Fundamental, e à tarde freqüenta o Projeto Quixote. "Nas segundas
faço hip hop, nas quartas teatro e nas sextas percussão", diz
orgulhosa. Como os demais adolescentes, Daiane tem sua escala de tarefas
dentro da Casa. Uma delas é cuidar das plantas espalhadas pelo jardim e
pelo pátio interno. Hoje, ela já começa a pensar em possíveis
atividades para o futuro. "Eu gosto de consertar carros, aprendi com
uns colegas de rua no Rio, mas também gostaria de montar uma academia de
dança", divaga. Enquanto não se decide, exercita seu talento também
como compositora e cantora de rap. Quando compõe, Daiane não escreve as
letras. Guarda tudo na memória, e vai relembrando à medida que canta. Um
dos últimos foi o Rap do Sonho:
Hoje eu tive um sonho,
Um sonho um pouco diferente.
Eu sonhei que todo mundo era gente.
Gente eu sei que somos,
Mas gente decente,
Num lugar maravilhoso,
Onde vivíamos contentes, felizes,
Porque o mal lá não havia,
Era apenas beleza, e nossa natureza
Era completa e pura (...)
A Casa 100% Gente fica na Rua
Muniz de Souza, 46. Tel: 3399-2439. Contribuições para a entidade podem
ser feitas pela seguinte conta:
Banco Banespa
Agência 0118
Conta corrente 13003772-1
Reportagem e texto: Nilva Bianco
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